Lesbiana

  Dei poucos passos para frente antes de vê-la escorada no portão da minha casa e querer morrer. Morrer estatelada no asfalto quente de Bela Vista e não ter que lidar mais com aquilo, não ter que lidar com mais ninguém, seria uma benção que um Deus homofóbico não me concederia. Desse jeito, com um suspiro resignado, me lembro que fui eu que me coloquei nessa e continuo a andar.

    Paro do lado do meu portão, o meu portão em que ela está escorada como se dela fosse, e digo “licença”. Assim, bem seca, porque é assim que eu sou. Eu não ouço uma resposta, mas sinto aquele sorrisinho branco e safado como se ele fosse a porcaria de um campo magnético e sinto a raiva travando meu maxilar.

“Vai me deixar entrar?” ela questiona baixinho, o sotaque ressoando entre as sílabas.

“Não é como se eu tivesse escolha, né, Talita?” Digo, novamente grossa e com um pouco de orgulho disso. Olho diretamente nos olhos dela agora e percebo que ela chorou. Ótimo, mais uma briga descontada em duas horas comigo, a idiota.

   Apesar das minhas revertidas e dos olhos inchados, o sorriso se alarga. É obsceno o quanto é bonito o castanho da sua pele, uma obscenidade que não deveria ser da minha conta, mas, como disse, eu sou a idiota aqui.

No me grites, cariño”, ela continua falando baixinho, com o velho tom insinuante que conheço de cor, “sabes que me pones triste

Sempre me aflito quando ela começa a falar castelhano – tudo dito em língua materna é sacrossanto e tudo em Lita é puramente profano, dessa maneira, o que me resta é novamente remoer como a acho atraente e do fato de ela saber tão bem disso.

“E de te pones triste já basta tu novio, não é?” respondo sem olhar para ela, entrando no quintal e colocando a chave na porta da entrada.

   Ela ri, e é uma risada tão melancólica que por um momento eu sinto pena, de verdade. Algo se remexe dentro de mim, percebo o meu estômago borboletiando e suprimo um suspiro.

    Abro a porta e não olho pra ela quando a deixo entrar, uma parte de mim – a parte feliz por eu ter sido tão eficientemente grossa – muitíssimo decepcionada por continuar deixando ela fazer o que quiser comigo.

   Coloco os livros na estante da sala e sinto o cansaço das aulas de hoje doerem meu corpo, então.

   Tudo o que eu queria era um banho, mas antes que eu pudesse sequer pensar ela me pegou em um beijinho ou besito, como ela sussurra naquela vozinha feroz, sempre um pouco antes de engolir minha razão.

Te extrañé mucho”, ela diz, enquanto puxo seu corpo sob o meu, “Todos los días, todos los días me haces falta!

   A parte de mim que gosta de ouvir suas mentiras abre um sorrisinho em meus lábios, mas ele some em poucos minutos depois de tirar sua calça. Há hematomas em seu abdome e queimaduras em suas coxas, perco o ar ao compreender e pulo para trás, chocada, a empurrando para a cadeira.

“¡¿Qué hizo él?!” grito, por reflexo, “O que… O que ele fez, Talita?” soluço, não acreditando.

  Começo a respirar ofegante, as lágrimas sobem rápido demais e deixam minha cabeça vertiginosa. Ela apenas me olha, claramente sem reação, seu rosto de repente sem cor.

“Eu… eu… me olvidé de eso!” diz, tentando colocar a calça rapidamente.

Completamente em choque, mas pensando ser o certo a se fazer, paro suas mãos. Seguro-as na dobra de sua calça e a olho.

“Espera aqui” digo, muito séria, e ela assente. Levanto e vou ao lavabo, procurando o que eu sabia que estava em algum lugar. Achei o antisséptico no escuro e, tropeçando nas minhas lágrimas, voltei pra sala.

   Encontro-a ainda sentada, com a calça vestida pela metade e com as mãos no rosto, completamente absorta em pensamentos.

“Eu não sou muito boa nisso” me desculpo abrindo a tampa do medicamento.

  Ela não tenta me conter, seu rosto ainda absorto de uma maneira que nunca vi antes. Eu sabia que ele era violento, mas nunca imaginei que era agressivo… talvez só fosse questão de tempo.  

    Logo notei que eram queimaduras de cigarro, e os hematomas… eu sinceramente nem queria imaginar o que eram os hematomas. Não soube o que falar, então fiquei em silêncio enquanto cuidava, o mais delicadamente possível, dos machucados.

“Perdóname, cariño” ela diz, finalmente, tão baixo. Eu grunho cansada e a encaro, então.

Isso ainda vai nos matar, mujer” sussurro e tenho certeza no que falo.

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