ÁGUA

Ele suspirou pesadamente e se levantou, e eu soube naquele mesmo instante que estava desistindo.

Quando eu tinha sete anos as coisas eram difíceis.

Eu havia reprovado a primeira série e a minha alfabetização era um assunto delicado na escola e principalmente dentro de casa. Eu sabia que estava desapontando papai e mamãe e todos ao nosso redor por ser tão preguiçosa e desleixada, mas eu definitivamente não sabia como eu poderia juntar aquelas letras sem elas se espalharem e se confundirem ao meu redor, como um bando de formas ilusórias que não faziam o menor sentido.

Papai passou tardes inteiras ao meu lado tentando me fazer entender que a maneira como eu compreendia era errada e a maneira como eu não compreendia era a certa, então eu não progredi de forma nenhuma e isso o exasperou cada dia mais, até aquele dia. Cansado, então, ele sussurrou:

“Ok, chega disso. Anna, você me envergonha! É totalmente vergonhoso pra mim ter uma filha tão retardada.”

E, furioso, partiu pela porta.

Não era nenhuma novidade ser uma decepção, eu sempre sentia os olhares deles ao meu redor como se eu fosse algo quebrado que eles não sabiam como consertar. Mas ninguém nunca tinha proferido isso em nenhum momento até então, e essa foi a primeira vez em que eu tive certeza do fracasso que eu era. De repente, senti um gosto amargo de sal na garganta, o gosto das lágrimas. Fortuitamente senti uma maré chegando, algo profundo que eu não poderia controlar se começasse.

Nesse momento eu soube que eu precisava me livrar desse sentimento, dessas palavras que quebraram a pouca esperança que eu tinha em mim mesma. E o meu livramento, desde aquele dia, foi pela dor.

Com convicção energética parei na frente da pequena planta que vovó cultivava ao lado de casa. Um vaso baixinho e esverdeado, repleto de pequenos carocinhos avermelhados que pareciam inofensivos demais para serem percebidos como mini malaguetas.

Pisquei os olhos e, com cuidado, puxei cada pimentinha e coloquei uma à uma dentro das minhas narinas, empurrando-as para caberem muitas, até finalmente sentir uma sensação insuportável de fogo por dentro e um líquido grosso começar a escorrer. O líquido escarlate derramou-se sobre os meus lábios, pingando na minha blusa. Eu senti naquele momento a pior dor que já senti, mas isso só me deixou ainda mais convicta.

Então, comecei a esmiuçar as pimentas em meus dedos, ignorando o fato deles ficarem em brasas, e passei, tranquilamente, o grosso soro sobre meus olhos.

A dor que se seguiu arrancou um grito mudo de meus lábios ensanguentados e me joguei ao chão, cega e mutilada.

E em minha mente apenas martelava aqueles olhares de decepção, aquelas letras incompreensíveis e aquela palavra que eu não saberia nunca esquecer. Retardada, retardada, retardada.

Não me lembro exatamente por quanto tempo fiquei jogada no chão, por quanto tempo tive aqueles pensamentos vertiginosos que não podia controlar e muito menos ainda por quanto tempo sangrei, mas me lembro de outras coisas.

Me lembro da sensação da água fria que um vulto contrastante me jogou, em desespero. Dos gritos ao meu redor que não pareciam existir de verdade. Do colo e abraço de algum espectro. Me lembro, afinal, das lágrimas que, de algum lugar acima, respingaram em meu rosto e fizeram carinho na pele em chamas. Me lembro da água que se chocou, como um cachoeira fina, no fogo da minha dor. E sorri em agradecimento.

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