Você se lembra

   Você se lembra dele com a íris do olho esquerdo um pouco mais clara na luz, um cabelo encaracolado em que seu mindinho sempre se enrolava e daquele olhar sensualmente pidão quando queria algo. Ele era seu oásis, um centro constante de bom humor.

    Então, mal pode lembrar do seu cheiro, o cheiro daquele perfume caro que ele ganhou de amigo secreto no natal e no cujo, ao se sentir mal, era a primeira lembrança boa que conseguia pensar e  murmurar pra si mesma o quanto ele ficaria feliz por você tentar novamente.

    Lembra-se das horas em que você e ele passavam abraçados, você com a cabeça em seu peito, cada vez mais feliz em sentir o coração dele batendo efêmera e calmamente contra o seu rosto.

    Se lembra de cada pequeno detalhe daquele rosto, cada sensação que ele te transmitia.

   Agora, olhando para aquele polaroid amassado, você se sentia vazia e pra baixo novamente quando relembrava aquele dia: vocês se desentenderam, ele te comparou a aquela ex que você detesta, e te fez sentir tão mal que disse-lhe, em meio a raiva, que ele era um erro em sua vida, que você deveria ter permanecido com um dos melhores amigos dele e nunca ter entrado naquela relação.

    Você se lembra como observou, agora remotamente arrependida, ele te expulsar da casa dele e ter certeza que ele iria chorar logo que você saísse.

    Essa lembrança fortuitamente te fez correr para a cozinha, mas o vinho havia acabado. E tentando se lembrar do cheiro dele, que agora se esvaia de sua mente, lembrou-se da drástica festa em que o tal melhor amigo dele havia se admitido gay e segredado que nunca havia tido relacionamentos com mulheres.

    Você com certeza se lembra do olhar dele quando descobriu sua mentira, lembra também da sua risada quando viu suas bochechas corarem.

    Lembra-se quando achou uma esperança solta dentro daquele sorriso, mas de repente a ex dele chegou e ele a pegou pela mão e a apresentou como sua namorada. Você nunca esquecerá como se sentiu vazia e pra baixo e como quis os matar, insanamente, quando o viu observá-la e sorrir como te sorria. Mas apesar da dor, o máximo que pôde fazer foi pedir licença para ir ao banheiro e rapidamente sair pela porta dos fundos.

    Deu-se conta de que as coisas terminaram quando sentiu as lágrimas secarem e o táxi parar em frente à sua casa.

    Foi só ontem, quando achou aquela caixinha com fotos e viu um polaroid de vocês tirado quando se conheceram, que mergulhou no barril de fermentados que sua mãe guarda para as festas de fim de ano, enquanto se sentia novamente vazia e pra baixo observando seus rostos… tão jovens.

    E nesse momento você chorava, não podia mais estancar suas lágrimas com os vinhos. As lágrimas, então, caiam sobre o polaroid que agora era roto e dobrado sobre o rosto dele, e você se lembrava novamente e novamente o SMS que ele havia mandado um dia após a festa de aniversário dele: “Sinto pela pneumonia. Melhoras, minha amiga.”

    O vazio, o se sentir para baixo, agora se transformava em soluços de grandes remorsos. E dentro da sua mente que devaneava de memórias dele, a culpa então era o que restava.

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